LARMS 2026 traz ao Brasil a maior delegação chinesa já reunida em um evento de mineração e mecânica das rochas na América Latina

LARMS 2026 traz ao Brasil a maior delegação chinesa já reunida em um evento de mineração e mecânica das rochas na América Latina

Cerca de 40 pesquisadores e especialistas da China em mineração e rochas desembarcam em Brasília na próxima semana, em um momento em que o país asiático se consolida como o maior investidor estrangeiro na mineração brasileira. O evento também reunirá o presidente e três vice-presidentes da ISRM, a principal associação internacional de mecânica de rochas. Especialistas do Brasil e da América Latina também vão participar do encontro.

O X Simpósio Latino-Americano de Mecânica das Rochas (LARMS 2026), que será realizado de 26 a 28 de agosto no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília, chega à sua décima edição com um perfil inédito: será o encontro em que a comunidade técnica brasileira terá contato direto e presencial com a mais expressiva delegação chinesa já vista em um evento do setor na região.

Promovido pelo Comitê Brasileiro de Mecânica das Rochas (CBMR) da ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica), em parceria com a International Society for Rock Mechanics and Rock Engineering (ISRM), o simpósio ocorre no âmbito do XXII Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (COBRAMSEG), sob o tema "Mecânica das Rochas para um Futuro Sustentável: Inovação na Mineração, Energia e Infraestrutura".

Uma delegação de 40 chineses — a maior estrangeira do evento

Serão cerca de 40 representantes chineses no LARMS 2026, entre pesquisadores, professores e profissionais da indústria, formando a segunda maior delegação do evento, superada apenas pela brasileira.

"Há investimentos chineses   significativos na área de mineração. O   setor de mineração no Brasil está  passando por uma reestruturação e,   até onde eu posso ver, a presença   dos chineses está começando a ser bem significativa. Não apenas do ponto de vista de investimento, mas do ponto de vista operacional. Eles já estão atuando em operações", explica Sergio Fontoura, presidente eleito da ISRM, que assume o cargo no próximo ano.

 

Entre os nomes confirmados está o professor Manchao He, da China University of Mining and Technology (Pequim), membro da Academia Chinesa de Ciências e um dos nomes mais expressivos da mecânica das rochas mundial. Ele foi escolhido por unanimidade, após avaliação técnica de uma comissão de especialistas brasileiros, como o primeiro conferencista da Palestra CBMR — distinção criada no início deste ano pelo Comitê para reconhecer profissionais de renome internacional com contribuições excepcionais à área.

Por que a China está olhando para o Brasil

A aproximação não é casual. Segundo Fontoura, o movimento mais amplo entre os dois países vem gerando aproximações setoriais concretas, e a mecânica das rochas é uma delas. Hoje, a China é a maior investidora estrangeira em mineração no Brasil, com presença em diferentes frentes: mineração subterrânea, mineração a céu aberto e terras raras.

O interesse chinês, no entanto, vai além do capital. Há também uma frente técnica e de fornecimento de equipamentos e serviços, com destaque para o mercado de tuneladoras (TBMs), onde a tecnologia chinesa começa a se apresentar como alternativa aos fabricantes europeus.

"Isso denota que não só a tecnologia vai começar a chegar aqui, mas que existe um intercâmbio com um país de cultura bem distinta da ocidental. Estamos muito acostumados a trabalhar com o mundo ocidental: trocar conhecimento, fazer negócios, contratar serviços. E agora vem um outro ator, com outras variáveis. Acho isso muito importante, muito significativo”, explica Fontoura.

O que o Brasil tem a ganhar tecnicamente

A China desenvolveu, ao longo de décadas, uma tecnologia robusta de escavações subterrâneas em ambientes geologicamente complexos, resultado direto da exploração de carvão a grandes profundidades. É exatamente esse acervo técnico que estará em Brasília.

"Eles têm essa tecnologia muito bem desenvolvida. Vejo que, em um primeiro momento, essa parceria com grupos da China é muito importante, porque você pode colocar em paralelo o que já é feito aqui com o que está sendo feito em outro local. E aí cabe ao investigador, pesquisador ou projetista verificar qual é a melhor alternativa", avalia Fontoura.

Para ele, o LARMS 2026 oferece à comunidade brasileira uma janela rara: a chance de interagir diretamente com esses especialistas, seja em conversas, seja pela via dos trabalhos técnicos e das palestras. "É nesse ambiente que as coisas acontecem. É nesse momento que as ideias surgem e que nós podemos absorver. Apenas temos que aproveitar e fazer isso de uma maneira sistemática e muito séria, porque aí o resultado final é extremamente positivo."

Um setor mineral em transformação

O momento brasileiro ajuda a explicar o interesse. A mineração é um dos pilares da economia nacional, mas o país historicamente exportou minério como commodity não processada. Isso começa a mudar, especialmente na área de terras raras, com atenção crescente ao processamento, ao beneficiamento e à industrialização.

Há também um deslocamento geográfico em curso. O estado do Pará superou Minas Gerais e é hoje o maior produtor mineral do Brasil. Uma mudança de eixo que reorganiza fluxos de profissionais, demanda serviços locais e abre oportunidades para novas empresas e para as universidades como agentes fomentadores de pesquisa.

"Estive no Geonorte no início do ano e, tanto no voo de ida quanto no de volta, encontrei muitas pessoas indo ou voltando do Pará por conta do setor de mineração. Futuramente, vai haver a necessidade de esses profissionais estarem sediados lá, e não nesse fluxo de ida e vinda", observa. Belo Horizonte, por sua vez, já concentra um grande contingente de profissionais geotécnicos que atendem às empresas de mineração da região.

"É um momento muito rico de oportunidades para quem atua no setor de mineração."

ISRM em força: presidente e três vice-presidentes confirmados

O LARMS 2026 também se destaca pelo grau de envolvimento da ISRM. Estará presente o atual presidente da sociedade, professor Seokwon Jeon, da Coreia do Sul, acompanhado de três vice-presidentes: Esteban Hormazabal (América Latina), da SRK Consulting, no Chile; Milorad Jovanovski, da Universidade Ss. Cyril and Methodius, na Macedônia do Norte; e Fengshou Zhang da Universidade Tongji (Vice presidente at Large).

"Não me lembro de um outro evento em nível regional, que não seja o congresso anual da ISRM, com uma participação tão expressiva da sociedade. A presença da ISRM, de certa maneira, dá peso e valida todo o esforço feito pelo CBMR e pela organização do LARMS", diz Fontoura.

Como presidente eleito da ISRM, ele enxerga um ganho estratégico: "É um bom passo para ter a ISRM bem integrada à comunidade de mecânica das rochas da América Latina e, no caso, também do Brasil."

O evento deve ainda servir para consolidar parcerias regionais, especialmente com Chile e Peru, dois países com grande atividade em mineração.

Elogio à nova geração do CBMR

Fontoura fez questão de destacar a atuação da diretoria que hoje conduz o comitê.

"A nova liderança do CBMR é um grupo jovem, é um grupo muito ativo. Isso me deixa muito feliz, porque percebo que há uma continuidade e, principalmente, novas ideias a caminho. Interagir com a diretoria atual, com o Grupo Jovem, ver os desafios que eles tiveram que enfrentar para o LARMS e a nova edição do RockBowl com outro nível de envolvimento, são questões que esse grupo teve que resolver. Eu parabenizo esse grupo."

Para ele, o LARMS 2026 marca também um divisor de águas institucional. Uma de suas leituras mais relevantes é a aproximação, agora visível, entre o CBMR e os profissionais de mineração do país, um público até então disperso e sem representação associativa clara.

"Está aparecendo de uma forma muito mais nítida do que antes. É um subproduto fantástico, porque muda de dimensão. O CBMR é um candidato a representar esse grupo de geotecnia que trabalha na área de mineração."

Assista à entrevista completa: