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Conhecendo a América do Sul: Parque de La Ciudad
- Detalhes
- Categoria pai: Parques
- Categoria: Trip Reports
- Publicado em Domingo, 29 Janeiro 2012 12:06
- Escrito por Maria Renata França
Termino aqui a minha série de trip reports com a visita mais especial de toda a viagem: O Parque de La Ciudad. Foi a realização de um sonho, e embora eu tenha tido a oportunidade de conhecer mais de 40 parques pelo mundo, nada se compara até hoje a experiência de entrar no que um dia foi o maior parque da América do Sul e poder passar uma tarde inteira lá, só eu e um pedaço da história...
| Mapa do Parque de La Ciudad em seus áureos tempos |
A história do Parque de La Ciudad começa em 1978, quando em plena ditadura militar foi feita uma licitação para a construção de um parque zoofitogeográfico e de diversões na cidade de Buenos Aires. A empresa vencedora desta licitação foi a Parques Interama S.A., cuja direção era formada por militares da ditadura que governava a Argentina naquele momento, e civis.
A Parques Interama por sua vez contratou a empresa Intamin AG para fazer a importação não só das atrações como também de instalações e acessórios, além da construção de uma torre de observação. Nos anos que se seguiram dezenas de caminhões com peças da Intamin e Schwarzkpof eram vistos entrando e saindo do canteiro de obras, que parecia não parar nunca. O projeto era grandioso: Teria uma torre de observação de 206 metros de altura, uma montanha russa racer de aço fabricada pela Intamin/Giovanola que seria a mais extensa do mundo, além de uma montanha russa Schwarzkpof de 36m de altura, uma das maiores do mundo na época.
O Parque Interama foi inaugurado em 21 de Setembro de 1982, porém apenas um ano depois o governo argentino revogou a concessão e tomou para si o controle do parque, alegando que as cláusulas do contrato não estavam sendo cumpridas. A partir desse momento o nome do parque foi mudado para Parque de La Ciudad, nome que permanece até hoje. No ano de 2003 o então chefe de governo da cidade de Buenos Aires decidiiu fechar o parque momentâneamente para o que dizia ser uma obra de modernização do parque, fato que nunca ocorreu. O parque permanceu 4 anos fechado, sem receber qualquer manutenção ou melhoria, e foi reaberto em 3 de fevereiro de 2007, porém com apenas 14 atrações funcionando, em sua maioria infantis. O plano seria restaurar aos poucos todas as 60 atrações do parque. Em 2008 uma nova mudança no governo de Buenos Aires fez com que o parque fosse novamente fechado, alegando falta de segurança nas atrações devido à sua idade e estado de conservação.
Me perdoem pela longuíssima introdução, mas essa é uma das histórias mais incríveis de como destruir um parque de diversões que tinha tudo para ser incrível.
| Entrada do Parque de La Ciudad com a Torre Espacial ao fundo |
Para se chegar ao Parque de La Ciudade deve-se tomar a linha roxa do metrô (Linha E) e descer em sua estação final, Plaza de Los Virreyes. De lá você pega o Pre-Metro, uma espécie de metrô na superfície, e depois de 8 estações você estará na porta do parque. Essa viagem toda dura mais de uma hora, e a localização do parque é péssima, totalmente cercada por favelas. Confesso, senti um pouco de medo, tava na cara que eu não era dali, que estava perdida olhando o mapa de 5 em 5 minutos, mas no final deu tudo certo.
A estação Parque de La Ciudad te deixa exatamente na porta do parque. Achei que estava fechado, não havia ninguém por lá. Cheguei no que um dia foi a bilheteria do parque e encontrei uma funcionária, que me cobrou 1 peso para entrar no parque, já me avisando que somente a área central estava aberta a visitação. (Vale uma nota aqui: No final de 2011 a Torre Espacial havia sido reaberta a visitação, mas quando fui estava fechada novamente, o que no fundo acabou me ajudando, depois explico porquê).
A área central aonde estão localizados os lagos, gramados e mesas de pic nic está liberada para o público. De resto, grades, tapumes e fitas isolam todo o resto do parque, incluindo a área aonde ficam as atrações (ver mapa a seguir). Me fiz de sonsa e perguntei se não poderia passar para o outro lado, e me informaram que talvez com uma autorização especial da administração do parque, sim, mas essa só poderia ser emitida dias úteis, quando o parque está fechado. Mas depois pensei bem e vi que essa autorização seria a pior opção, depois também explico o motivo.
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| Nesse mapa podemos ver como estão distribuídas as atrações pelo parque. A área em branco mostra o espaço aberto ao público. |
| Vertigorama | Todos os trens estão estacionados há mais de 25 anos |
Fui andando pelo parque, explorando, vendo quantos seguranças tinham (encontrei somente um, além de uns poucos funcionários de limpeza e manutenção). fui me afastando, afastando, e quando ninguém estava olhando, passei entre as grades e entrei na Vertigorama. Agora explico: Se a torre estivesse aberta haveriam mais funcionários em volta da torre, que fica a 20m da Vertigorama. Sem contar que eu poderia ser vista vagando por ali por qualquer um lá de cima. Sorte número 1. A sorte número 2 foi não pedir a tal da autorização. A Vertigorama está literalmente caindo aos pedaços, então mesmo com uma autorização não teriam me deixado ir até ela.
Ahhhh, como ela é linda! Teria sido a melhor montanha russa da América do Sul. E mesmo sem nunca ter funcionado, ela está lá, imponente, se confundindo com a vegetação que hoje cresce em volta dela. Me perdi por dentro dela. Fiquei mais de uma hora acompanhando seu percurso, catando todas as partes dela que estavam caídas pelo chão para levar para casa. Deitei no gramado e perdi a noção do tempo, só ouvindo seu aço estalando com o vento, e pensando que a qualquer momento ouviria o barulho dos motores, os gritos ao fundo e o chão tremendo com o passar de um trem.
Mas não, ela nunca vai funcionar. E nem deveria. Deveria ficar ali para sempre, como parte da história.
| Poste caído sobre o trilho | Poderia passar um dia inteiro com ela, e não me cansaria |
Olhei para o relógio e percebi que já tinha ficado tempo demais por ali, era hora de seguir minha exploração. Segui contornando o parque por fora, por onde um dia passou a ferrovia que dava a volta no parque, e cheguei no que era o palco do show de águas dançantes. E ao fundo, uma roda gigante dupla, com suas cadeiras balançando com o vento, e um pouco mais atrás a Aconcágua.
Fui andando devagar, me escondendo pelas sombras, fotografando cada pedacinho do parque. Até que me vi de frente com ela, a montanha russa da Schwarzkpof feita especialmente para o parque!
Arrastei um pedaço da grade e quando vi já estava dentro da estação. Um trem está estacionado, esperando para receber os passageiros. Ao fundo, um segundo trem parado nos freios, esperando o primeiro sair da estação. Sentei num deles, obvio. Passei de um lado para o outro, abri o painel de controle, ainda intacto.
Não resisti, testei botão por botão até que consegui soltar 2 deles e levar pra casa. Uma relíquia. Sentei nos trilhos, subi no lift, já estava no meio do caminho para o topo quando percebi que ia chamar muito a atenção se fosse até lá em cima e isso poderia acabar com o resto da minha visita. Resolvi tirar algumas fotos e descer rapidamente. Fiquei outra hora e meia por ali, olhando cada detalhe, imaginando como ela era, se era gostosa, se tinha airtime. O estado de conservação dela não é de todo ruim. Talvez voltasse sim a operar depois de um bom trabalho de manutenção, mas ela é tão linda assim parada na estação em silêncio.
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| Fui coletando peças da Vertigorama pelo caminho | Linda e parada no tempo | Como ela teria sido gostosa! | Prontos para sair da estação cheios de passageiros! |
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| Praça aonde havia o show de águas | Parece que tudo parou no tempo | Aconcágua | Tudo deixado exatamente como estava em 2003 |
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| Painel de controle | Schwarzkpof | Segundo trem, parado nos freios | Vista do lift |
| WildCat | Trens tematizados como carrinhos antigos |
O Parque de La Ciudad ainda tinha uma terceira montanha russa, uma WildCat da Schwarzkpof que operou de 1982 até 2003. Sua plataforma era de madeira, e está desmoronando com o tempo. Tive que tomar cuidado, pois havia muitos buracos e pedaços de madeira soltas. O estado geral dos trilhos não é tão ruim, também acredito que poderia ser reformada, embora os carrinhos já indiquem que ela tem quase 30 anos.
Voltei para a Vertigorama, perdi mais uns minutos olhando para ela, e usei ela como atalho para o outro lado do parque, aonde ficavam as atrações infantis e que hoje parece cenário de filme de terror. Fui andando lentamente. O vento batia forte, balançando as cadeiras dos brinquedos, abrindo e fechando portas do que um dia foram restaurantes e lojas. Me sentia num sonho, era uma sensação que não tem como explicar. Em alguns momentos você jura que ouve crianças rindo, música tocando, a caixa registradora computando mais uma compra. Mas é tudo imaginação.
Estava anoitecendo, já eram 7 da noite, resolvi ir embora.
| Lindo e assustador | Abandono |
Voltei andando para a entrada do parque com aquela tristeza de quem deixa para trás um grande parque. Com aquela pergunta "quando vou voltar aqui de novo?". Com aquela sensação de que realmente passei o dia num parque de diversões.
Se eu voltaria lá? Com certeza! Voltarei lá quantas vezes eu puder!
"We need to understand the past in order to solve the problems of the present or the future"
Para terminar esse longuíiiiiissimo trip report, deixo aqui um vídeo com todas as fotos que tirei no Parque de La Ciudad.

